RuraLetras II: quando um sonho volta a florescer nas trilhas do interior



RuraLetras II: quando um sonho volta a florescer nas trilhas do interior

Por Cláudia Coelho

Há momentos em nossa vida que são difíceis de explicar. A gente trabalha, sonha, planeja, escreve projetos, faz contas, enfrenta dificuldades, corrige caminhos, pede ajuda, carrega caixas, monta espaços, resolve problemas e, de repente, olha ao redor e percebe: aconteceu.

Foi exatamente assim que me senti na abertura oficial da RuraLetras II.

Estar na Praça de Bonsucesso, no Terceiro Distrito de Teresópolis, diante de tantas crianças, professores, escritores, artistas, parceiros e amigos foi uma daquelas experiências que fazem todo o cansaço ganhar sentido.

Eu olhava para aquela praça e pensava em tudo o que havia acontecido até chegarmos ali.

A RuraLetras não nasceu pronta. Ela nasceu de uma ideia, de uma inquietação e, principalmente, de uma certeza: a cultura não pode ficar concentrada apenas nos grandes centros, nos espaços tradicionais ou nos lugares onde ela sempre acontece.

A cultura precisa circular.

Precisa subir a serra, seguir pelas estradas, chegar aos bairros, às comunidades, às escolas e às regiões rurais.

E mais do que isso: é preciso reconhecer que a cultura já existe nesses lugares.

Um sonho que nasceu de três pessoas — e cresceu com muitas mãos

A RuraLetras foi idealizada por mim, por Gustavo Lucena e por Álan Magalhães.

Nós três acreditamos nesse projeto.

Eu, como escritora e produtora cultural; Gustavo, como escritor e editor do Jornal e Editora Alecrim; e Álan, como músico, escritor e produtor cultural, reunimos nossas experiências, nossas ideias e, principalmente, a nossa vontade de fazer acontecer.

A primeira RuraLetras foi realizada em 2023.

Depois dela, o sonho continuou vivo.

Foram três anos até chegarmos à segunda edição, em 2026. Três anos em que muita coisa aconteceu, muitos projetos nasceram, o Jornal Alecrim cresceu, transformou-se também em revista, a Editora Alecrim ganhou novos caminhos e nós continuamos trabalhando com o mesmo propósito: divulgar a cultura e aproximar pessoas.

Quando vi a RuraLetras II acontecendo, pensei muito sobre isso.

Um projeto cultural não nasce no dia da abertura.

Ele começa muito antes.

Começa quando alguém tem uma ideia. Continua quando essa ideia é colocada no papel. Passa pela escrita de um projeto, pela inscrição em um edital, pela espera, pelas correções, pela aprovação, pelo planejamento e por meses de trabalho.

E, mesmo depois de tudo isso, ainda precisa de muitas mãos.

“É a primeira vez que você participa de uma feira literária?”

Durante a abertura, aconteceu um momento que me marcou profundamente.

Gabriel Salabert, presidente da Casa da Leitura e do Conhecimento, perguntou às crianças quantas delas já haviam participado de uma feira literária.

Algumas levantaram as mãos.

Depois, ele perguntou quantas estavam participando pela primeira vez.

Muitas mãos se levantaram.

Muitas.

E naquele instante eu senti, mais uma vez, que tudo havia valido a pena.

Para algumas daquelas crianças, a RuraLetras II não era apenas mais um evento no calendário.

Era a primeira feira literária de suas vidas.

Talvez fosse a primeira vez que encontravam um escritor de perto.

A primeira vez que viam um lançamento de livro.

A primeira vez que percebiam que uma história pode nascer das mãos de alguém que mora perto delas.

A primeira vez que participavam de uma contação de histórias em uma feira.

A primeira vez que descobriam que literatura, música, teatro, dança e cultura podem ocupar a praça de sua própria comunidade.

Como escritora, professora e produtora cultural, isso me toca profundamente.

Porque sei que os encontros podem mudar caminhos.

Uma criança talvez não se lembre de todas as palavras que ouviu em um evento, mas pode se lembrar de como se sentiu.

Pode se lembrar de um livro.

De uma história.

De uma música.

De um escritor.

De uma conversa.

E, quem sabe, pode voltar para casa pensando: “Eu também posso fazer isso”.

“Vocês também podem realizar”

A fala de Álan durante a abertura teve exatamente esse sentido.

Ele conversou diretamente com os estudantes e disse algo que considero uma das mensagens mais importantes de toda a cerimônia: nós, que estávamos ali no palco, não somos pessoas diferentes daquelas que estavam na plateia.

Somos pessoas que imaginaram alguma coisa e decidiram tentar realizá-la.

Álan disse às crianças que elas também poderiam estar naquele palco. Que poderiam escrever um livro, criar um projeto, realizar uma festa, inventar alguma coisa bonita.

É claro que não acontece em um passe de mágica.

Dá trabalho.

Muito trabalho!

Mas tudo começa com uma ideia e com a coragem de acreditar nela.

Foi assim com a RuraLetras.

Nós imaginamos uma feira literária na região rural.

Acreditamos.

Trabalhamos.

E ali estava ela.

Pela segunda vez.

A cultura existe aqui

Quando chegou a minha vez de falar, tentei explicar às crianças por que criamos o Jornal e Editora Alecrim.

Eu disse que somos, desde o início, um grupo de artistas que queria divulgar outros artistas.

E o que é divulgar?

É mostrar às pessoas que alguém existe.

É dizer: “Olha, tem uma escritora aqui”.

“Tem um músico ali.”

“Tem alguém que pinta.”

“Tem alguém que dança.”

“Tem alguém que escreve histórias.”

“Tem alguém que guarda saberes.”

“Tem alguém que cria.”

Durante muito tempo, acostumamo-nos a imaginar que as grandes manifestações culturais acontecem apenas nos centros das cidades ou nas grandes capitais.

Mas quem disse que o interior não tem cultura?

Tem!

Tem literatura.

Tem pintura.

Tem música.

Tem desenho.

Tem artesanato.

Tem histórias.

Tem memória.

Tem gente criativa.

Tem crianças e jovens com um mundo inteiro de ideias dentro da cabeça.

E é isso que queremos mostrar para o “mundão todo”.

A RuraLetras não foi criada porque acreditamos que a região rural é um lugar sem cultura e que nós precisamos levar cultura até lá.

Muito pelo contrário.

Ela existe porque sabemos que esses territórios também produzem cultura e precisam de espaços de encontro, circulação, reconhecimento e visibilidade.

Queremos levar artistas para conhecer a comunidade.

Mas queremos também que a comunidade mostre seus artistas.

Queremos levar livros.

Mas queremos descobrir quem está escrevendo.

Queremos contar histórias.

Mas também queremos ouvir as histórias que vivem nesses lugares.

Essa troca é o que dá sentido ao projeto.

Uma feira feita por muita gente

Naquele palco, fiz questão de agradecer.

E ainda acho que nunca conseguiremos agradecer o suficiente.

Porque uma feira como a RuraLetras não é feita por três pessoas.

Nós três idealizamos o projeto, mas uma ideia só ganha vida quando outras pessoas acreditam nela.

Agradeci à equipe da Kombiteca Samburá de Histórias, especialmente a Sandra Dias e Marlene Macedo, que tantas vezes “compram” as minhas ideias — inclusive as mais malucas.

Agradeci a Luana e Richard, que estiveram conosco na produção.

Aos autores.

Aos artistas.

Aos artesãos.

Aos parceiros.

Às pessoas que ajudaram com um lanche, um transporte, uma estrutura, um apoio, uma doação ou uma solução quando parecia que tínhamos mais um problema para resolver.

Cada tenda, cada livro, cada apresentação e cada detalhe daquela feira carregava um pouco do trabalho de alguém.

Por isso, eu disse naquele dia e repito agora: para fazer uma festa desse tamanho, precisamos de união e ajuda.

Não dá para “três pessoinhas” fazerem tudo sozinhas.

E existe ainda um grupo que merece um agradecimento muito especial: os professores.

Eu sou professora.

Sei o trabalho que existe por trás da organização de uma turma para participar de uma atividade externa.

Sei da responsabilidade.

Da logística.

Dos horários.

Dos cuidados.

Por isso, ver tantos professores chegando com seus estudantes foi emocionante.

Sem os professores, a gente não chega a lugar nenhum.

O poder de uma política pública que chega às pessoas

Também é importante falar sobre algo que, muitas vezes, não é compreendido por quem vê um evento pronto: projetos culturais precisam de recursos.

A RuraLetras II foi realizada com patrocínio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio do edital Literatura do Rio ao RJ, além do apoio institucional da Prefeitura de Teresópolis.

Como Álan explicou durante a abertura, o recurso que possibilita um evento como esse não aparece do nada.

Ele é resultado de uma política pública.

Existe um edital.

Existe um projeto.

Existe uma seleção.

Existe responsabilidade.

Existe trabalho.

E, finalmente, aquele recurso se transforma em algo concreto.

Na RuraLetras, ele se transformou em livros, encontros, apresentações, histórias, música e acesso gratuito à cultura.

Transformou-se também naquela imagem que ficará guardada comigo: crianças sentadas diante de um palco, muitas delas participando de uma feira literária pela primeira vez.

É para isso que as políticas públicas de cultura precisam existir.

Para chegar às pessoas.

Que venham a terceira, a quarta, a quinta...

Durante sua fala, Gabriel Salabert desejou que a RuraLetras tenha uma terceira, uma quarta, uma quinta, uma sexta edição.

Nós também desejamos.

Muito.

A primeira aconteceu em 2023.

A segunda, em 2026.

Foram três anos entre uma e outra.

Meu desejo é que não precisemos esperar tanto pela próxima.

Quero ver a RuraLetras crescer.

Quero ver mais escolas participando.

Mais crianças conhecendo escritores.

Mais autores da região mostrando seus livros.

Mais artistas ocupando a praça.

Mais histórias sendo contadas.

Mais música.

Mais encontros.

Mais pessoas descobrindo que a cultura também pertence a elas.

Naquele dia, eu olhei para a praça...

E vi muito mais do que um evento.

Vi um sonho que havia saído do papel.

Vi meus amigos ao meu lado.

Vi pessoas que acreditaram em nós.

Vi professores trazendo seus alunos.

Vi escritores mostrando seus livros.

Vi artistas chegando de outros municípios para compartilhar o que fazem.

Vi gente da própria região descobrindo gente da própria região.

E vi muitas crianças.

Talvez algumas delas nunca se tornem escritoras, artistas ou produtoras culturais.

Talvez outras se tornem.

Não sabemos.

Mas, naquele dia, elas estavam ali.

E tiveram a oportunidade de descobrir que a cultura também pode acontecer perto de casa.

Que um escritor pode morar na rua ao lado.

Que uma história pode nascer no interior.

Que uma ideia pode virar um livro.

Que um sonho pode virar um projeto.

E que um projeto, quando encontra trabalho, políticas públicas, parceiros e muitas mãos dispostas a ajudar, pode transformar uma praça inteira.

A RuraLetras II aconteceu.

E eu tive o privilégio de olhar para tudo aquilo e pensar:

Nós sonhamos.

Nós acreditamos.

Nós fizemos.

E eu espero, de todo o coração, que ainda estejamos apenas começando.